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ENTRETER Anúncios banidos: a linha fina entre provocação estratégica e erro caro de marca
Entreter

Anúncios banidos: a linha fina entre provocação estratégica e erro caro de marca

Em 1991, a Benetton publicou um anúncio com a foto de um padre e uma freira se beijando. Dezesseis países baniram a peça. A marca não pediu desculpas, não recuou e não trocou a agência. Três décadas depois, aquela campanha ainda é citada em escolas de design e aulas de branding como estudo de caso de posicionamento. Em 2018, a Dolce & Gabbana publicou um vídeo em que uma modelo chinesa tentava, de forma caricata, comer pizza e macarrão com hashi. A marca cancelou o desfile de Xangai em horas, perdeu distribuidores e levou anos para voltar a vender no segundo maior mercado de luxo do mundo.

Duas marcas, duas polêmicas, dois resultados opostos. A diferença entre as duas não foi o tamanho do barulho. Foi o cálculo que existia, ou não existia, antes de apertar o botão de publicar.

Benetton e a provocação com propósito declarado

Oliviero Toscani, fotógrafo e diretor de criação da Benetton por quase vinte anos, nunca escondeu o que estava fazendo. A marca vendia roupas básicas, de cores simples, para um público jovem e urbano. O diferencial não estava no tecido. Estava na posição que a empresa assumia publicamente sobre racismo, religião, AIDS e guerra, temas que nenhuma outra marca de varejo tocava na época. Quando a Benetton publicou a foto de um soldado morto na Guerra da Bósnia com o roupão ensanguentado, a reação foi violenta. Mas a reação confirmava exatamente o que a marca queria comunicar: que ela não era indiferente ao mundo fora da vitrine.

A provocação funcionou porque havia coerência entre o tema escolhido e a identidade que a marca já vinha construindo havia anos. Quem se incomodava com a imagem não era o público da Benetton. Era, na maioria das vezes, quem nunca compraria da marca de qualquer forma.

Quando a provocação não tem lastro

A Dolce & Gabbana não tinha esse histórico. A marca nunca havia se posicionado sobre cultura chinesa, nunca havia construído relação com aquele público além da venda. O vídeo não provocou um debate, expôs uma lacuna: a empresa tentou ser engraçada sobre uma cultura que não entendia, para um mercado que representava bilhões em faturamento. Não existia propósito por trás da peça, só uma tentativa de viralizar. Quando o público reagiu, a marca não tinha nada para defender, porque não havia nada sendo defendido desde o início. A resposta foi recuar, e recuar depois do estrago já é o resultado mais caro possível: perde a venda e perde a credibilidade.

Polêmica gera atenção. Só a marca que sabe exatamente o que representa consegue transformar essa atenção em lealdade, em vez de transformá-la em pedido de desculpas.

A pergunta que separa coragem de descuido

Antes de qualquer campanha que flerte com a provocação, existe uma pergunta que a maioria das empresas pula: se isso der errado, o que a marca está disposta a perder, e esse risco está alinhado com algo que ela já defende? A Benetton sabia a resposta porque já tinha anos de posicionamento sobre causas sociais. A marca sabia o preço de ser polêmica, porque já pagava esse preço havia tempo. A D&G nunca fez essa conta, porque tratou a peça como piada isolada, não como extensão de uma identidade.

Isso não significa que toda marca precisa evitar o desconforto para ser segura. Significa que a provocação sem lastro estratégico é aposta, não branding. E aposta, quando dá errado, custa o que a empresa levou anos para construir.

O que fica para quem constrói marca

Antes de aprovar uma campanha pensando em gerar barulho, vale medir a distância entre o que a peça provoca e o que a marca já representa publicamente. Se essa distância for grande, o risco não é de censura, é de incoerência, e incoerência o público reconhece mais rápido do que qualquer agência consegue corrigir. Quem constrói posicionamento de verdade não precisa decidir isso no calor da campanha. Essa decisão já devia estar tomada muito antes, no momento em que a marca definiu o que está, e o que nunca estará, disposta a defender.

Quer aplicar isso na sua marca?

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