O recomeço que salvou marcas: o que Apple, Burberry e Natura fizeram antes de crescer de novo
Em 1997, a Apple estava a poucos meses da falência. Steve Jobs voltou à empresa e a primeira decisão dele não foi lançar um produto novo. Foi cortar setenta por cento da linha de produtos existente. A Apple vendia impressoras, câmeras digitais, um assistente pessoal chamado Newton e uma dúzia de variações do Macintosh que nem os próprios vendedores da loja conseguiam explicar direito. Jobs reduziu tudo a quatro categorias, para consumidor e para profissional, portátil e de mesa. A marca só recomeçou a crescer quando parou de tentar ser tudo para todo mundo ao mesmo tempo.
Conto essa história porque em vinte e cinco anos de branding vi o mesmo padrão se repetir em escala menor, com empresários brasileiros que abrem a agenda comigo achando que o problema é falta de força de vontade ou de investimento em marketing. Quase nunca é isso. O problema é que a marca carrega decisões demais tomadas por medo, e nenhuma delas foi tomada a partir de uma identidade clara.
O recomeço não é sobre ter menos, é sobre saber o que cortar
A Burberry, no início dos anos 2000, tinha virado sinônimo de falsificação e de um público que a marca não queria mais atrair. A saída não foi abandonar o xadrez que já era ícone da grife. Foi reafirmar esse símbolo com mais rigor, controlando onde ele aparecia e retirando o padrão de produtos baratos que tinham diluído o valor da marca. Christopher Bailey, então diretor criativo, dizia que a tarefa era proteger o que já funcionava, não reinventar do zero. A Burberry recuperou margem e prestígio nos anos seguintes fazendo exatamente isso.
Esse é o ponto que costuma escapar de quem está no meio de uma crise de marca: o instinto de recomeçar do zero. Troca de nome, troca de paleta, troca de tom de voz, tudo de uma vez, na esperança de que o público esqueça o problema anterior. Isso raramente funciona porque o público não estava confuso sobre a estética da marca. Estava confuso sobre o que ela representava e para quem ela existia. Resolver isso exige método, não impulso.
Alinhamento antes de reinvenção
No método que uso com clientes, o Alinhamento de Identidade, a primeira pergunta nunca é visual. É comportamental: qual o perfil de comunicação dessa marca, considerando DISC, e qual arquétipo sustenta esse comportamento de forma coerente. Uma marca de perfil dominante e arquétipo Governante, por exemplo, não ganha nada tentando soar acolhedora e brincalhona só porque um concorrente cresceu com esse tom. Ela ganha reafirmando autoridade com mais clareza do que antes.
A Natura passou por isso na fusão com a Avon e depois na tentativa de integrar a The Body Shop e a Aesop. As marcas que a Natura manteve mais fortes foram as que preservaram identidade própria dentro do grupo, não as que foram forçadas a parecer com a marca-mãe. Aesop continuou vendendo através de lojas conceituais minimalistas e textos quase literários, porque esse sempre foi o arquétipo dela, o Sábio que educa antes de vender. Misturar isso com a linguagem mais sensorial da Natura teria custado exatamente o que a fusão deveria proteger.
Recomeçar uma marca não é apagar o que veio antes. É decidir, com dados e método, o que dessa história merece ficar.
O que fica depois que a poeira assenta
Toda marca que já vi se recuperar de um momento ruim, seja um rebranding malfeito, uma crise de reputação ou simplesmente anos de comunicação sem direção, passou pelo mesmo processo. Primeiro, parar de adicionar coisas novas. Depois, entender com precisão qual comportamento e qual arquétipo já geravam resultado antes da confusão começar. Só então vem a reconstrução visual e verbal, apoiada nessa base.
Se você está com a sensação de que sua marca precisa recomeçar, comece pela pergunta que a Apple, a Burberry e a Natura responderam antes de qualquer campanha nova: o que essa marca representa quando ninguém está olhando, e quem exatamente essa marca serve. O resto é consequência.
Quer aplicar isso na sua marca?
Falar com a Rafaela