Tom de voz de marca: a decisão estratégica que a maioria das empresas trata como estilo
Toda empresa que já passou por um processo de branding tem um manual de identidade visual guardado em algum lugar, com regras de logo, cores e tipografia. Muito poucas têm o equivalente para a escrita. O resultado aparece rápido: a paleta muda, a fonte muda, mas o texto do site, do Instagram e do e-mail de cobrança soa exatamente igual ao da concorrente. Isso acontece porque tom de voz, na prática, costuma ser tratado como estilo pessoal de quem está escrevendo naquele dia, não como parte da identidade da marca.
A voz é decisão, não talento do redator
Um erro recorrente nos projetos que atendo é achar que voz de marca depende de contratar um bom copywriter. Bom copywriter escreve bem, mas escrever bem sem regra gera dependência da pessoa, não consistência de marca. Quando esse profissional sai da empresa, a voz muda junto. Tom de voz precisa ser um sistema documentado, com decisões explícitas sobre o que a marca diz, como diz e o que nunca diria, para que qualquer pessoa da equipe consiga escrever dentro dele. O Nubank não soa informal porque o time de conteúdo é engraçado. Soa informal porque existe uma diretriz que autoriza humor, define até onde ele vai e estabelece o limite claro entre leveza e falta de seriedade num assunto que envolve dinheiro das pessoas.
Os três eixos que sustentam a voz
No método que uso com clientes, o Alinhamento de Identidade, a voz nasce do cruzamento entre o perfil comportamental DISC da marca e o arquétipo escolhido, não de uma lista solta de adjetivos. Um arquétipo Sábio com perfil predominante Conforme escreve de um jeito. Um arquétipo Fora da Lei com perfil Dominante escreve de outro completamente diferente. A Magazine Luiza fala como vizinha prestativa porque o arquétipo ali é Cuidador com traço Estável, então o texto evita jargão e vai direto ao que resolve o problema do cliente. Já uma marca de investimentos com arquétipo Sábio e traço Conforme costuma evitar gíria e priorizar dado e precisão, porque a confiança nesse caso se constrói pela exatidão, não pela proximidade.
Voz de marca que muda de acordo com quem está de plantão no Instagram naquele dia não é voz, é sorte.
O erro mais comum: confundir tom de voz com lista de adjetivos
A maior parte dos manuais de marca que já revisei tem uma página assim: "nossa marca é confiante, próxima, inovadora e autêntica". Isso não orienta ninguém a escrever nada. Qualquer empresa pode se descrever com essas quatro palavras, e nenhuma delas diz o que fazer diante de uma reclamação pública, de um lançamento de produto ou de um post de aniversário da empresa. Tom de voz funcional responde perguntas concretas. A marca usa emoji ou não, em que contexto? Ela se dirige ao cliente pelo nome ou de forma mais formal? Quando erra, ela pede desculpas de que jeito, com quanto detalhe? Essas respostas, e não os adjetivos soltos, são o que garante que um texto escrito por três pessoas diferentes da equipe pareça ter saído da mesma marca.
Como saber se a voz está funcionando
O teste mais simples é tirar a logo e o nome de um texto e perguntar se dá para identificar a marca só pela forma de escrever. Se a resposta for não, a voz ainda não existe como ativo, existe só como intenção. Marcas fortes passam nesse teste porque a decisão sobre como falar foi tomada uma vez, documentada e repetida em todo ponto de contato, do post de Instagram ao e-mail de cobrança em atraso. É trabalho de estratégia, feito antes de qualquer texto ser escrito, não depois dele.
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